The Creation, visionários em ação.

janeiro 18, 2011

Nos anos sessenta o Creation produziu gravações com qualidade incrivelmente bem resolvidas, composições absolutamente inovadoras que de forma visionária anteciparam tendências no rock inglês, detalhes esses que proporcionaram a banda o irretocável status de “cult-band” nas décadas seguintes e ainda hoje. O Creation foi sem dúvida nenhuma a matriz de muitas bandas incluídas no menu oferecido pelo chamado Brit-Pop.

Essa audácia sonora na qual a banda explorou em sua pequena porém marcante trajetória começou a ser forjada ainda em 1963 com o grupo Mark Four. Nesta banda estavam três amigos que formariam o Creation em 66, o baterista Jack Jones, o vocalista Kenny Pickett e o pequeno gênio da guitarra Eddie Philips, para completar a formação viria o baixista Bob Gardner.

Em junho de 66 é lançado o primeiro compacto: “Making Time”/”Try and Stop Me”, é o início de um trabalho significativo do produtor Shel Talmy (The Kinks e The Who) que se estendeu por boa parte das gravações do grupo, é nele também que Eddie Philips começa a explorar técnicas inovadoras na guitarra: “power chords” em alto volume, desconcertantes feedbacks e pioneiramente o uso de um arco de violino, tocando de forma quase percussiva sua Gibson 335, algo que se tornou uma marca no som da banda, na época uma revolução sonora sem precedentes (anos depois Jimmy Page se apropriou dessa mesma idéia em concertos do Led Zepellin).

Com o segundo single “Painter Man”/”Biff Bang Pow”, novas doses de feedback, ao vivo a performance era completada por experimentos de Kenny Pickett, o palco se transformava em um painel de arte, e em tempo real suas aventuras com pincéis e spray levavam o público e banda a um “happennig” de Pop Art.

A banda se manteve estável até o ano seguinte, quando Pickett abandona o grupo, o baixista Bob Gardner assume o vocal e em seu lugar entra Kim Gardner (ex- Birds). Com essa formação o grupo realiza alguns shows com os Rolling Stones e toca na Austrália junto com os Easybeats, Garner e Phillips compõe neste período clássicos como “Life is Just Beginning” e “How Does it Feel to Feel” (regravada pelo Ride no album “Carnival of Light” de 1994).

Faixas fantásticas como: “Tom Tom”, “Nightmares”, “If I Stay too Long” são deste período, tecnicamente equilibrados é também nessa ocasião que lançam o primeiro álbum “We are The Paintermen”. O Creation personificou de forma absolutamente eficiente o espírito de modernidade estética-visual com sofisticação sonora dentro do cardápio das bandas Mod, que incluía a selvageria do The Who, o soul rasgado do Small Faces ou a sutileza do The Action, mas curiosamente as portas do sucesso comercial sempre permaneceram fechadas para a banda. Há episódios que somam a importância histórica do grupo, como o convite de Pete Townshend para Eddie Philips se juntar ao The Who como um segundo guitarrista e boatos sobre o próprio Townshend credenciado ao fã clube do Creation.

Infelizmente a harmonia musical frente ao pequeno reconhecimento do material produzido, não foi suficiente para manter o grupo unido por muito tempo, Eddie Phillips anuncia sua saída e logo em seguida sai Bob Gardner. Parcialmente reformulado, o Creation entra em sua terceira fase com Ron Wood (também ex-Birds) na guitarra, e a volta do vocalista Kenny Pickett ao seu posto. Mesmo sem o talento de Phillips a banda segue mantendo o nível criativo experimentado durante toda sua trajetória. Ronn acrescenta uma guitarra mais fuzz que pode ser conferida nas faixas “I Am The Walker” e  “For All That I Am” essa lado A do ultimo single em 1968.

O anos subsequentes ao fim da banda foram marcados por idas e vindas, reuniões e tentivas em vão de prosseguir de forma estável. No final dos anos sessenta Eddie Philips chegou a tocar contra-baixo na banda de apoio da cantora P.P. Arnold. Um retorno que obteve notoriedade trazendo de volta a formação clássica (Pickett, Phillips, Jones e Gardner) aconteceu em 1995, no ano seguinte lançam pela Creation Records o excelente álbum “Power Surge” disco que resgata parte da genialidade musical produzida em seu auge criativo nos anos 60, na ocasião varios músicos deram testemunho sobre a inegável influência do grupo, essa volta ainda foi marcada por uma turnê com o a banda Ride.

Em 1983 Alan McGee foi claro no que diz respeito ao reconhecimento do trabalho produzido por Eddie Philips e Cia, prestando uma homenagem batizou sua gravadora de Creation Records, mas seu reconhecimento não para por aí, o nome de sua banda, a Biff, Bang Pow,  também tem uma relação direta com esses rapazes de Cheshunt. Em 1997, desfrutando de um tardio, mas bem-vindo reconhecimento, surge a triste notícia da morte do vocalista Kenny Pickett, Bob Gardner assume novamente os vocais e em 2001 tocam pela primeira vez nos Estados Unidos. Em 2004 o selo inglês Cherry Red Records lança um álbum intitulado “Psychedelic Rose” com um repertório inédito registrado entre 1987/88. A banda continua se apresentando esporadicamente e hoje traz somente Phillips da formação original.

Em “terras brazilis”, também foi detectado os estilhaços do “Creation-Sound”, durante os anos 90, Flávio Telles guitarrista e vocalista do grupo mod The Charts, registrou com habilidade feedbacks e acordes promovidos por arco de violino em algumas composições do album “Carbônicos” de 1996, em plena atividade os Modulares registraram no seu segundo EP de 2009 um vigoroso cover de “Try and Stop Me”, podemos conferir também uma releitura de “How Does it Feel to Feel”, no recente album “Time Was” de Kid Vinil Xperience.

Um ótimo caminho para conhecer o trabalho da banda em seu melhor momento é a coletânea lançada em 1998, em dois volumes pelo selo Retroactive, intitulada de Complete Collection, Vol 1:Making Time e Complete Collection, Vol.2 :Biff Bang Pow. que traz um apanhado de faixas entre 66 à 68. Pode se conferir todos os singles deste período (alguns em stéreo e mono), faixas inéditas e outras ao vivo (registradas no programa de TV alemã Beat, Beat, Beat). Boa pesquisa e uma ótima audição.

Por Sandro Garcia

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2 Respostas to “The Creation, visionários em ação.”

  1. carlos costa Says:

    olá sandro, visual caprichado como sempre nas coisas que lança, parabéns! o ézio ontem comentou que achou o single (continental combo) magnífico, tem que ver como comentou, rs


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